26/02/2018

Resenha: "Mulheres que não sabem chorar", de Lilian Farias

Resenha por: Pedro Gabriel
Obra: Mulheres que não sabem chorar
Autora: Lilian Farias
Editora: Giz Editorial
Gênero: LGBT/GLS/Romance/Ficção
Páginas: 210
Ano: 2016
Onde Comprar: Amazon - Físico ou E-book
Adicione: Skoob
Nota: ★★★★★ Perfeito!
Livro cedido pela autora.
SINOPSE: A vida de Marisa é regida pelo controle. Seja à frente do seu trabalho ou da vida dos filhos, ela é racional, mantendo-se sempre fria, um ser à parte das banalidades, cuja única preocupação é ser um exemplo. Olga é sua antítese. Sentimentos à flor da pele, dor flagelando a carne, pensamentos embaçados pelo esquecimento proporcionado pelo álcool. Sozinha, preocupa-se em apenas ser, em um mundo cercado por fatos que não reconhece mais como seus. Enquanto isso, Ana e Verônica esbarram com o acaso.
Duas senhoras solitárias, vizinhas e antagônicas. Será que um dia alguém acharia que poderiam viver em paz? Mais ainda, será que poderiam se apaixonar? Duas jovens livres e independentes. O que as impede de ficar juntas?

Dores. Tristezas. Sofrimentos. Amor...

"Mulheres que não sabem chorar" tem como protagonistas três mulheres. Cada uma com vivências diferentes, mas ligadas pelo destino. 

Olga. Alcoólatra há anos. Frágil. Traz consigo marcas intensas de um passado memorável. Perdeu sua filha e agora luta contra a bebida. Uma luta cheia de recaídas... 
Marisa. Viúva. Fumante. De temperamento fortíssimo. Dona de si. Mais uma marcada por lembranças tristes. 


Ana. Jovem. Não tem uma boa relação com a mãe, principalmente com o pai, o grande responsável por tantas  tristezas e angústias de sua vida. 

"É dor. É ácido que corrói. É ferida que não sara. É o mal da humanidade na minha derme. É muita dor." 

Os filhos de Marisa, 55 anos, viajaram para um intercâmbio e passarão um ano longe da mãe, o que para eles é um alívio. Para a mãe, nem tanto. Agora Ela irá se dedicar somente ao trabalho e ficará sozinha em casa. Mas isso não é o suficiente pra abalar essa mulher.

Vizinho a Ela, mora Olga. Uma mulher viciada em bebidas, que viu a própria filha ser levada pelo câncer. Após a morte da herdeira, sua grande motivação era tentar se salvar do alcoolismo procurando ajuda - que foi o último pedido da filha. 


Olga e Marisa não se davam bem. Marisa fazia questão de importunar Olga devido ao vício dela em bebidas alcoólicas. Ou pelo simples fato de querer criar intriga. A relação das duas era tão conturbada que já teve até polícia para resolver problema entre Elas. As duas simplesmente brigavam por tudo. 

Até que um dia, essas duas vizinhas acabaram sendo unidas da pior maneira possível. Em uma situação gravemente real, que todas as mulheres não estão livres de sofrer. E justo nesse momento, Marisa fez o que toda mulher deve fazer: uniu forças e ajudou Olga a se reerguer.

Diferente da relação de Olga e Marisa, conhecemos a jovem Ana. Marcada pelas tristezas de uma infância e juventude cheias de abusos sexuais e outros problemas familiares.


Num determinado dia, Ela conhece Verônica num parque da cidade em que vive. Depois dessa data, o destino acabou unindo Elas em outros momentos e logo surgiu um sentimento entre as duas. Uma paixão complicada devido ao fato de Verônica ser casada com outra mulher. 

Aos poucos que vamos conhecendo a relação das duas, vamos descobrindo tudo sobre o que Ana viveu por anos e anos CALADA!

O que todas essas mulheres têm em comum? Amor! Uma ligação intensa e verdadeira, mas machucada por causa do machismo e do preconceito da sociedade.  

Será que esse amor vai superar os obstáculos?

"- Será mesmo que existe tanta felicidade?
 - Eu não sei, mas podemos descobrir juntas."


Sabe aquele livro em que tira você por completo desse mundo? "Mulheres que não sabem chorar", escrito por Lilian Farias, faz isso, mas, infelizmente, o mundo em que as personagens vivem é o que você, eu e outros leitores vivem. É este mundo que há pessoas que transmitem bons sentimentos, mas que também existem outras em que o coração só transborda ódio, preconceitos e desamor.

Segundo o que a autora diz no próprio livro, as histórias de Ana, Olga, Marisa e outras mulheres que surgem ao longo da narrativa, foram escritas baseadas na realidade de mulheres que compartilharam suas experiências positivas e negativas com a autora. Mulheres que foram, e ainda devem ser, vítimas do machismo e da opressão da sociedade.

"Duvidam muito das mulheres, fazem piadas e nos chamam de sexo frágil. Mas quem já experimentou a força de uma mulher ferida sabe da dimensão da nossa astúcia." 


Além desses dois temas, Lilian aproveitou os personagens para abordar outros assuntos importantes, como o alcoolismo, aborto, estupro, homossexualidade e as consequências do preconceito da família, incesto e até mesmo o machismo contra os homens. Isso tudo é tão importante. Acrescenta, ensina tanto àqueles que, de alguma forma, estão 'infectados' pelos preconceitos podres da sociedade conservadora - a correta, a dona da certeza.

Por isso não se assustem com os pensamentos de alguns personagens. Podem chocar mesmo, mas a autora tem esse objetivo, pois representa a realidade. E por que esconder o real quando é possível expor a verdade, né?

"O mundo não está pronto para a alma ferida da mulher. Tenta camuflar, massacrar, cada vez que uma mulher fala. Tentam nos calar, alegando que somos loucas e violentas. Faziam isso no passado, fazem isso no presente e, se não tomarmos cuidado, o futuro será pior."


Em determinado momento da história, a autora nos leva ao passado - mais precisamente na época da Ditadura Militar - e fala sobre uma personagem que foi internada num Sanatório que tratava de homossexuais - que eram considerados 'anomalias'. E olha, impossível não ficar chocado, triste e emocionado com a narrativa. Tanta tortura, abusos sexuais, solidão... dores. Dores no corpo e na alma. E isso tudo é reflexo do preconceito. O mau que as pessoas causam por não aceitar as diferenças do outro e não tratá-lo com respeito. 

Esse sanatório me lembrou bastante a famosa 'cura gay', que é um tratamento proibido pelo Conselho Federal de Psicologia desde 1999, mas que em 2017 um juiz liberou os psicólogos para oferecem terapia de reversão sexual. É mole? Como diz minha bisavó Josefa: "Durma com uma 'zuada' dessas!". 

Pode ser clichê como for, mas vou aproveitar o espaço pra lembrar que "não existe cura pra o que não é doença!". O Brasil está um caos, mas ainda têm muitas pessoas preocupadas com quem fulano se beija ou transa. Pelo amor de Deus. Falta paciência. 



A autora explora tanto os dramas dos personagens - por vezes de forma poética e em outros momentos de forma nua e crua - que cheguei a imaginar e desejar muito que esse livro, num futuro próximo, possa se tornar um filme esplendoroso e bem polêmico. Um longa-metragem que poderia ser um marco na história do cinema brasileiro e que, de preferência, uma mulher dirigisse ele, claro. Enfim, mas esse é um desejo meu e pode até ser de mais alguns leitores da obra. De qualquer forma, já estou na torcida pra que isso aconteça, só não sei se a autora tem/teria essa vontade. 

Em suma, ler "Mulheres que não sabem chorar" foi uma das experiências literárias mais incrível da minha vida. Não imaginei que eu fosse ficar tão encantado com essa leitura. A escrita da autora ajudou bastante. Na maior parte é poética sim, mas ela escreve de um jeito que a leitura se torna prazerosa, envolvente e acessível para todos, inclusive para os que não estão acostumados com essa forma de escrita.

"Mulheres que não sabem chorar" é muito mais que uma história sobre três mulheres marcadas pelo sofrimento. É uma obra que mostra, de forma nua e crua, o peso que a mulher carrega nas costas pelo simples fato de ser mulher.

Independente de seu gênero ou idade, livre-se das amarras do preconceito e embarque nessa leitura empoderadora. 

Essa edição publicada pela Giz Editorial está muito bonita. A capa é linda, a diagramação está muito bem organizada e cheia de detalhes, a divisão de capítulos está bem feita e leva o nome de flores diferentes - que no final vocês irão descobrir o que significam. Além disso, a fonte tem um tamanho agradável pra leitura, as folhas levemente amareladas e o livro possui orelhas. 

Ouçam "Lentes de Contato", do Kleber Melo, na voz da cantora Patricia Polayne. A música é uma indicação da autora Lilian Farias. Ela ouvia essa canção na fase final da escrita de "Mulheres que não sabem chorar"


"(...) Há alguns alívios que só as mulheres podem sentir. Algumas cargas, só as mulheres compreendem. E quando uma mulher chora aliviada, o universo também sente. Outras mulheres também sentem."


Contatos da autora: Facebook | Site | Instagram 


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