03/10/2018

Entre a verdade e a ficção, em "Memórias da infância em que eu morri", de Hugo Pascottini Pernet

Por Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ)

No romance autobiográfico Memórias da infância em que eu morri, de Hugo Pascottini Pernet, temos um jogo espetacular entre as verdades e as formas do fingir. Autobiografia do grego autobiographía: autós (próprio), bíos (vida) e gráphein (escrever) revela um hibridismo próprio deste tipo literário, já que a linguagem verbal altera sentidos, demarca zonas de encobrimento das verdades a partir da escrita que é ambígua e dual. Neste romance temos um narrador mirim de 9 anos de idade que narra seu périplo de dor após ser diagnosticado com câncer sem ele saber da verdade de sua doença já que que o silêncio e a incomunicabilidade se interpõem no seu caminho. 

A voz infantil apresenta toda uma verossimilhança interna em que é possível palmilhar uma vida em segredo. Massaud Moisés disse: “Difícil traçar o limite exato entre a autobiografia, as memórias, o diário íntimo e as confissões, visto conterem, cada qual a seu modo, o mesmo extravasamento do “eu”. Não é por menos, estas memórias são narradas em primeira pessoa por este narrador infantil em que percebemos traços da voz de uma criança amadurecida que gosta de ler Fernando Pessoa como sua mãe, conhecedora da literatura e que explica o que é a metáfora para ele.

As fronteiras são tênues neste livro, pois temos uma mescla dos elementos definidos anteriormente: as memórias, como o título indica, a autobiografia e o diário que é dividido em três partes; a primeira “Fragmentos do diário”, uma narrativa em que domina a estruturação da escrita; a segunda, que são gravações de fita cassete do narrador infantil Hugo, o mesmo nome do autor, em que encontramos a oralidade típica deste formato e a terceira e última, que são fragmentos de conversas entre seu pai e sua mãe, em que temos a elucidação de um desfecho impactante e surpreendente. Além destas partes, temos um prólogo. Uma primeira tomada que temos na primeira parte é o confronto muito bem estruturado entre o mundo infantil e o adulto, os questionamentos do menino com relação à religião fervorosa dos pais que são católicos. O menino estrutura um projeto, um planejamento ao escrever um diário muito bem organizado. Hugo diz: “Talvez este também seja um dos motivos para eu iniciar este diário: preencher linhas e mais linhas com planos e mais planos”. Seu domínio narrativo está explicado, ele é vencedor de todos os concursos de redação da escola. Mas nos perguntamos. Até que ponto as vozes infantis e adultas de Hugo, o narrador e o autor se tocam, formando uma ciranda de ambiguidades e sugestões? 

No livro temos o embate entre o mundo de diversões, jogos e esportes das crianças, como seu irmão Eduardo um pouco mais velho que Hugo e este curtem e o assunto de adultos como os encontros religiosos dos pais e amigos na casa de Hugo. O menino desconstrói o poder da religião pela simplicidade das brincadeiras e dos jogos de linguagem a partir da metáfora. Vejamos: “Não suporto ficar repetindo ave-maria, ave-maria, ave-maria...para um céu inventado”. Temos os clichês como o “paraíso” – um lugar cheio de árvores e os olhos azuis e os cachinhos de Hugo que é visto como “anjinho”. Percebemos ao longo do diário as pistas como nas tragédias gregas que sinalizavam de antemão alguns enigmas que deveriam ser descobertos pelos receptores atentos. O menino que sonha em ser poeta vai percebendo que há algo estranho no seu corpo com as constantes idas ao hospital para exames e tratamentos. O menino faz analogias, comparações, tem a sensibilidade para perceber as minúcias do real, como a comparação que faz entre as veias e as mangueiras que regam as plantas.



A cor azul é constante na narrativa. É a cor do caderno azul de Hugo onde ele registra as impressões de seu diário. A cor dos olhos. A cor do manto que cobre Nossa Senhora de Fátima, cuja imagem o menino quebra por descuido e esconde este fato dos pais. O azul remete ao mistério, aos dons celestes e pode representar o contato do menino com seu céu de dentro. Com seu universo particular que tem que ser expelido para fora. Mesmo com toda dor e sofrimento com as sessões de quimioterapia que Hugo tem de ir, o desconforto no braço, ele não pode parar de escrever. Escrever é seu domínio sobre o mundo. Nele ele encontra o espaço que a doença não pode suprir. A superação da doença é seu processo narrativo. Já que não pode fazer mais esforço com as brincadeiras como o futebol, ele utiliza a literatura como via de escape para sua tragédia particular que atinge toda sua família e amigos. Inclusive a mãe se afasta do menino, tornando-se depressiva e trancada no quarto. O amor de mãe arrancado do menino é um pesadelo terrível em sua vida e para isso Hugo inventa possibilidades com as novas brincadeiras, inclusive a escrita que é um processo-remédio para sua dor da incomunicabilidade com o mundo. E por isto pede o gravador ao pai para colocar seu plano em prática e tentar se comunicar com a mãe.

O poder de imaginação do menino que poderíamos chamar de “delírios” teve a quem puxar. A referência é clara: Fernando Pessoa. Se este inventava biografias, vidas, com seus heterônimos, que Hugo adora; este imagina quadros bizarros e pessimistas sobre os fatos. Consequência da doença? As pistas entre o real e o imaginário, as verdades e os jogos de fingimento como em Fernando Pessoa comparecem aqui na vida do menino. Ele diz: “Já ouvi dizerem que a própria voz gravada soa diferente da voz real, mas isso não me importa”. A imaginação rasga a referência, o espelho com que o ficcional mira a realidade faz da linguagem algo que ultrapassa o meramente factual, tornando o hibridismo do autobiográfico, uma cabeça bifronte que aponta para o documental e o ficcional, como bem apontou o crítico literário Luiz Costa Lima com relação ao romance autobiográfico.

Uma comparação inusitada que Hugo faz é comparar as rezas e preces ao futebol, desconstruindo o tom sério e solene da oração. O menino em vários momentos da narrativa cria suposições do que deveria acontecer, o que não ocorre. A imaginação do menino é fruto da doença ou é agravada por ela? O menino preferia a residência pequena em que moravam e não esta casa grande em que vivem agora no meio da zona oeste do Rio de Janeiro. Mas o menino tem um sonho com esta casa enorme em que uma pedra cresce tomando os espaços. Será que seria um desejo do menino, a necessidade de mudança, já que a pedra representa a imutabilidade como o caroço nas costelas de Hugo? É interessante também como se dão as lembranças do menino em meio à voz do tempo presente. Algo que acontece de semelhante ao passado no presente suscita suas memórias. Em suas lembranças passa dos assuntos da religião para o futebol com destreza e fluidez. A religião apresenta uma rigidez para o menino enquanto a poesia é a delicadeza, a leveza. Ele se questiona se não estaria vivendo no mundo da ficção. O menino foge da dor para querer estar dentro de uma história, em ser a própria história: “Às vezes até me questiono se o que estou vivendo é real ou não passa e uma história de livro”. O que de fato acontece.

Temos neste livro magistral as recordações de um menino, a observação da realidade pelas óticas de uma criança, o que dá singularidade à história. Na incomunicabilidade da mãe, encontramos o reverso no menino Hugo a partir da profusão de palavras que é a própria narrativa dele. A empregada nova deles é quase muda e analfabeta, contrastando com o universo de Hugo. Ele tem um discurso que paira entre o pessimismo e a esperança. Hugo também imagina que não pode ter nada, sendo otimista em alguns momentos, revelando as forças opostas que invadem seu ser. O menino não sabe que tem câncer até entrar em contato com outras pessoas com os mesmos problemas, onde as revelações ocorrem com claridade. Não é por menos. A menina com que ele tem contato se chama “Clara”, clarificando seu caminho e o conduzindo à verdade. A delicadeza na descrição na casa da menina com câncer é maravilhosa. Hugo é de uma extrema delicadeza no trato com outros seres humanos. Não quer chatear os outros. Enquanto a menina Clara é debochada, o menino fica com receio de ofender as pessoas, impondo limites no relacionamento com as outras pessoas.

Se a verdade também é Alétheia, não esquecimento, o menino Hugo quer se lembrar, quer buscar a verdade no presente a partir do passado. As lembranças suscitadas pelo momento presente remetem o menino para outro universo paralelo. Ele inventa nomes. E as lembranças suscitam outras lembranças nos fazendo lembrar das bonecas russas em que um fragmento conduz a outro fragmento. São miniaturas se conduzindo, outras narrativas que percorrem o núcleo do texto. Temos ficções dentro de ficções como caixinhas dentro de outras caixinhas, guardando a menor caixinha para o capítulo final que é uma surpresa para todos nós leitores. Temos assim uma extensão da ficcionalidade, uma dobra ficcional, um transbordamento ficcional que supera o trabalho meramente factual, como no relato do filme que a mãe viu e de uma pintura que representa esta linha tênue entre a verdade e a ficção no livro de Hugo. Portanto, o hibridismo entre linguagem imaginativa e literária e a voz do documental comparece neste romance admirável de Hugo Pernet que deixará marcas para as futuras gerações de escritores pelo seu estilo ousado e original.

Obra: Memórias de infância em que eu morri
Autor: Hugo Pascottini Pernet
Editora: Penalux
Gênero: Ficção/Romance
Páginas: 172 
Ano: 2018 
Onde comprar: Loja Editora Penalux
Adicione: Skoob 



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